segunda-feira, 19 de maio de 2008

O homem que nadou até o fim do mundo

Daniel era um homem pacato, de poucas palavras e praticamente nenhum amigo. Comunicava-se muito pouco, jamais reclamava de nada, e nunca ousava dirigir a palavra a alguém sem que antes lhe fosse dirigida. Respondia às indagações feitas quase sempre através de monossílabos. Dizia que sim, dizia que não, raramente proferia frases grandes para expressar suas emoções. Aqueles que o circundavam especulavam que não tinha emoções.

O que Daniel gostava mesmo de fazer era ficar sozinho, ouvindo música ou estudando. Ninguém jamais soube o que se passava em sua cabeça. Nem sua mãe. Segundo dona Maria, o menino sempre foi muito calado. Não gostava de brincar na rua com os outros da sua idade. Não teve namoradinhas; nem sequer um amor platônico, coisa normal entre os tímidos.

Durante sua infância e adolescência Daniel limitou-se a ir à escola, estudar silenciosamente as matérias, tirar notas boas, e odiar profundamente o professor de português da sétima série, que obrigava todos os alunos a lerem suas redações em voz alta diante da turma. Ah, como Daniel odiava o professor Hélio! Mas seu ódio, obviamente, era calado. Todas as mágoas dos dias de exposição frente à turma eram introspectivas. Jamais esboçou ato de hostilidade contra o educador ou seus métodos.

Aos 17 anos, sob pressão dos familiares, prestou vestibular para psicologia e passou em boa colocação. Mas na faculdade sua vida de calado ficou insustentável. Em sua cidade natal não havia universidade, e como era bom aluno, conseguiu passar na Universidade Federal, e foi morar na capital. Seu primo Evandro, que também estudava na capital, providenciou para que morassem juntos, mas Evandro, ao contrário de Daniel, era bastante popular e a casa vivia cheia de convidados.

Naturalmente os amigos do primo ganharam simpatia por Daniel, e se propuseram a ajudá-lo. Ele parecia um bom rapaz, mas tinha problemas de relacionamento, pensaram. Consideraram que seu problema era a timidez e resolveram patrocinar um encontro com uma profissional do sexo. Sendo um serviço pago, não precisaria conversar nada, era só ação. Mas Daniel tampouco era um homem de muita ação. Ficou inicialmente assustado com a desenvoltura da moça, não quis tocá-la; apenas deixou-se tocar por uma questão de educação. Não queria ofender a senhorita que, afinal de contas, não estava fazendo mal algum. Respondeu instintivamente aos estímulos, mas sexo sem atitude é uma coisa muito complicada. Daniel não esboçava nem uma reação de prazer, logo, a garota, achando aquilo muito estranho perguntou:

- Você é viado?


Ele nem respondeu. Olhou para a prostituta com olhar de desprezo e colocou de volta a roupa que a moça retirou. Daniel ficara passivo durante a experiência. A garota tirou sua roupa, acariciou as partes íntimas, beijou seu corpo e ele não fez nada. Não retribuiu os beijos, não tocou seu corpo, não disse uma só palavra. Quando a moça fez a pergunta ele simplesmente vestiu a roupa e foi para o banheiro, onde poderia ficar sozinho.

No banheiro Daniel sempre passava horas sob a ducha. Era o seu grande momento. No chuveiro não havia ninguém para lhe fazer perguntas que não queria responder; não havia ninguém para emitir comentários que não queria ouvir; ninguém para lhe obrigar a fazer o que não queria fazer; era só a água, caindo benevolente sobre seu corpo e o ruído constante do chuveiro elétrico que o induzia facilmente a um estado de meditação. O banheiro sempre foi seu lugar preferido. Era seu acontecimento perfeito de solidão; que durava indefinidamente até alguém bater à porta.

- Saí desse chuveiro menino, que você vai pegar um resfriado! – diziam os pais

- Desliga o chuveiro, porra, que a conta vai ficar muito cara! – diziam os colegas da república

Ou

- Sai daí Daniel, que eu preciso tomar banho pra encontrar minha namorada! - também os colegas da república.

A vida nunca foi fácil para um jovem extremamente calado que só comunicava o mínimo com os pais ou para resolver problemas do cotidiano como comprar comida e ir ao banco pagar as contas. Com o passar do tempo, Daniel foi nutrindo um desprezo profundo pelos outros seres humanos.

Na época que morava em casa, com os pais, ele tinha seu cantinho para ficar quieto e solitário. Os pais, no início, eram compreensivos com as dificuldades do rapaz; mas, com o passar do tempo, foram se impacientando e o obrigaram a fazer faculdade. Em criança, não atormentavam muito a vida do menino que sempre queria ficar sozinho. Daniel era ótimo aluno na escola e não costumava meter-se em confusões. Para os pais, nada melhor. Veio a adolescência e nada de Daniel fazer amigos na escola ou na rua; os pais, então, começaram a ficar preocupados. Quando o jovem fez 16 anos, Dona Maria e seu Pedro procuraram ajuda de psiquiatras e psicólogos, mas Daniel nunca deu continuidade aos tratamentos. Desde novo o jovem demonstrava bastante interesse pelas questões da psique humana, razão que levou os pais a incentivarem o estudo da psicologia para que, talvez, encontrasse sozinho a solução para sua própria dificuldade de relacionamento com o mundo à sua volta. Mas Daniel não queria freqüentar a faculdade, aos 17 anos já conhecia o pensamento desde Lao-Tse a Baudrillard, passando por Nietzche, Freud e Lacan; e sentia-se suficientemente instruído para refletir sobre sua peculiaridade. Não teve escolha, foi forçado a mudar-se para a capital e na faculdade, morando com o primo e outros colegas, vivendo a vida na cidade grande, as dificuldades se intensificaram.

Sair para comprar comida era um grande desafio. O que dizer, então, da necessária convivência com aqueles que dividiam o apartamento. Não eram más pessoas, mas ninguém permitia a Daniel o espaço que ele tinha em casa para ficar ouvindo música ou lendo solitariamente, ou simplesmente olhando para a parede sem pensar em nada. A vida em república é intensa. Todos compartilham experiências e se ajudam na tarefa de manter a casa em ordem e no desafio de tornar a vida com grana curta na cidade grande menos difícil. Mas Daniel teve dificuldade em se adaptar. Não conversava com ninguém; ouvia o que os outros diziam, mas só respondia “sim” e “não”; limpava a casa quando era o seu dia, mas raramente atendia o telefone e não dava recados aos colegas. Aos poucos, os outros, além do primo, começaram a implicar com as diferenças de Daniel.

Certo dia, na sala, enquanto todos assistiam ao filme “Náufrago”, alguém que não lembro bem, fez a brincadeira:

- E aí, Evandro, a gente deveria mandar o Calado pra uma ilha deserta, lá ele não ia sentir falta de nada. Não ia precisar nem da bola pra conversar.

Aquela brincadeira, diferentemente das outras tantas que Daniel já havia ouvido, foi como uma fonte de inspiração. O calado levantou-se da poltrona onde estava e caminhou em direção da porta, abriu e saiu.

Não era uma cena incomum ver Daniel levantar-se no meio de um filme, e sem falar nada, sair do apartamento para comprar comida ou dar uma caminhada. Ele nunca falava mesmo com ninguém. Então os moradores da república não estranharam em nada sua reação. Eles sequer imaginavam que o Calado pudesse prestar atenção em suas conversas.

Pois dessa vez Daniel não pretendia sair e comprar comida. O objetivo era sair da cidade e procurar um local afastado onde pudesse viver suas próprias leis. Ele buscava um mundo que ele pudesse governar sem precisar disputar nem falar com ninguém. Os seres humanos que passaram por sua vida, e todos os outros vivos que ele não conheceu também, ele considerava como macacos sempre propensos a violência e falastrões. Daniel detestava, mais do que todos, aqueles que falavam demais. Jamais teve paciência para ouvi-los, seja pessoalmente ou em discursos para grandes multidões.

Gostava muito de ler, detestava ouvir leituras. Durante as aulas, ficava sempre em silêncio, às vezes ouvindo música. Gostava de música, pois ela trazia para ele a emoção de quem compôs e de quem interpretava. Tinha admiração por Beethoven, mas também admirava Noel Rosa e Racionais MC’s. As vozes humanas, para ele, só tinham alguma beleza e passavam alguma mensagem significante se fossem utilizadas na forma do canto, expressando toda a sensibilidade do artista. Por isto nunca falou muito e não gostava de ouvir os professores. Não falava pois não ousava poluir o ambiente com asneiras tal qual o faziam todos os demais, sem ressalvas. O ambiente só poderia ser preenchido pelo som da música, que ele jamais fora incentivado a praticar e jamais tivera a coragem de tentar sozinho. Nunca aprendeu nenhum instrumento e tampouco aprendeu a cantar; o máximo que fez foi aprender autodidata a ler e ouvir em inglês para poder compreender as letras de Jim Morrison, Roger Waters e outros astros do rock.

Quando saiu de casa, tinha algum dinheiro no bolso e vestia um conjunto de moletom. Passou em frente ao restaurante, onde gastaria o dinheiro normalmente, olhou lá dentro e fez um comentário para si:

- Bela porcaria essa comida de vocês. E o pior é que todo mundo ainda paga pra comer esse lixo! Por isto estão todos sempre fracos e doentes.

Seguiu até o ponto de ônibus, duas senhoras de idade comentavam sobre o crime do mês, parece que um casal jogara a filha pela janela do sexto andar. Daniel não quis continuar ali esperando a condução ouvindo aquelas desgraças e resolveu seguir andando à pé até a rodoviária.

Dez quilômetros depois, entrou no terminal rodoviário da capital, percorreu os guichês das companhias e, bom conhecedor de geografia, escolheu a passagem para a cidade mais remota que seu dinheiro pudesse pagar. Não era muito longe da capital, a grana do jantar só dava pra viajar cento e cinqüenta quilômetros, mas já estava suficiente. Seu destino era uma cidade bem pequena, próxima a uma reserva ambiental. Um lugar de poucas pessoas e muito espaço para ficar sozinho.

Já era noite e a viagem só aconteceria no dia seguinte, pela manhã. Daniel, então, passou a noite na rodoviária. Não achou ruim, pois não havia ninguém para perturbá-lo e durante a madrugada a rodoviária silenciou. Aquele barulho constante das pessoas falando alto e o som ambiente da rodoviária com seus anúncios cessaram. Ele pôde ficar em silêncio ouvindo, ao longe, o radinho do segurança tocando canções populares. Não dormiu, estava ansioso com a aventura que se iniciava.

O ônibus partiu pela manhã, e chegou ao destino três horas depois, ainda antes do almoço. Mas Daniel não pretendia fazer amigos ou experimentar a comida da roça, que na sua opinião seria tão cheia de doenças quanto a comida da cidade. Chegando lá, desceu na praça principal e entrou direto em uma mercearia. Com o resto do dinheiro que ainda tinha comprou uma vara de pescar, um kit de anzóis e um carretel de linha de nylon, para eventuais acidentes.

No caixa, na hora de pagar, teve que fazer uma pergunta:

- Onde fica o rio mais próximo?

- É só o senhor seguir andando logo ali aquela rua que ela vai dar no rio, não tem erro. - orientou a menina do caixa.

Daniel seguiu satisfeito a indicação da moça e logo alcançou o rio. Mas estava ainda muito perto da vila e àquela altura do rio se encontravam muitos pescadores. Pescador é silencioso quando pesca, mas o Calado queria isolamento total. Decidiu, então, seguir intuitivamente contra o curso do rio. Foi subindo pela margem até que a mata foi fechando, foi fechando e já não se ouvia mais nada a não ser os cânticos dos pássaros e o barulho das águas.

Achou um lugar tranqüilo onde as águas passavam sem muita velocidade e foi pescar. Nunca havia pescado antes, mas teve fé de que não seria muito difícil conseguir um alimento para a primeira noite na floresta.

Enquanto isto, já fazia quase um dia que Daniel havia deixado a república. Seu primo ficou preocupado, foi à polícia, fizeram buscas pela cidade, anunciaram nas rádios e nada. Nenhuma pista, afinal de contas, o Calado não tinha amigos e pouca gente haveria de sentir sua falta. Evandro ligou para seu Pedro e dona Maria, e foi um choque saber que ele não voltara pra casa. Então ficaram todos desesperados. Dona Maria chorou muito. Ela ainda chora até hoje todos os dias o sumiço do filho único, de quem nunca mais tiveram notícia.

Mas Daniel não estava nem um pouco preocupado com a mãe ou o pai, ou o primo, ou os professores. Ele queria ser livre das pessoas. E agora parecia estar. Ali, à beira do rio, pode desocupar sua mente de todas as obrigações de estudante, de filho, de homem, de católico, de futuro psicólogo, de cidadão, e etc...

Conseguiu pescar um lambari. Mas então descobriu que tinha outro problema: fazer fogo e assar o peixe. Ele não fumava, logo, não carregava um isqueiro. Lembrou do filme e tentou fazer fogo com gravetos, mas foi em vão. Passou algumas horas limpando o peixe, bem devagarzinho, tirou as escamas, tirou as entranhas, conseguiu tirar alguma carne dos pequenos espinhos e, quando a fome apertou, comeu o lambari cru (com doenças e tudo).

Ficou cansado e dormiu à beira do rio. No meio da noite, sentiu muito frio e embrenhou-se na mata em busca de um local mais aconchegante para descansar. Por sorte era lua cheia e, apesar da mata densa, era possível enxergar um caminho. Andou pelo labirinto da floresta durante cerca de uma hora e deu de cara com uma rocha. Caminhou durante um tempo ladeando a pedra úmida coberta pela vegetação e acabou encontrando uma pequena gruta, com chão de terra batida e sem umidade. Não era confortável como seu quarto, mas já não fazia tanto frio quanto ao relento à beira do rio.

Pela manhã acordou sentindo algumas dores nas costas, mas não se alarmou. Estava contente pelo seu primeiro dia longe do mundo. Tinha a certeza de que, com o tempo, acostumaria com a nova cama e as novas condições de vida. Acreditava valer a pena abrir mão do conforto em prol da vida em retiro. Agora não tinha mais que ouvir os conselhos do pai, as festas intermináveis do primo, as reclamações e as piadas dos colegas, as lições dos professores , nem o desaforo da puta. Estava livre.

Uma vez livre das pressões exercidas pela sociedade, Daniel se soltou. De repente, o Calado, que nunca gostou de conversar com ninguém começou a falar:

- Olá senhora árvore, muito bom dia!!

- Bom dia também para o senhor, bem-te-vi!!

Nem notou que conversava com a natureza, chegou à beira do rio, pediu licença às pedras e sentou-se.

- Olá, queridos peixes. Desculpem a pouca cortesia, mas eu estou com fome, e preciso muito assassinar um de vocês em razão da minha sobrevivência.

Passou toda a manhã pescando e conversando com os pássaros, as pedras, a água, as árvores e os peixes pescados. Quando o sol chegou ao meio dia, e o calor ficou insuportável, Daniel recolheu o resultado da pescaria e foi para a caverna. Sua nova casa não estava tão longe da margem quanto pareceu durante a noite. A caminhada em linha reta não durava mais de dez minutos.

À entrada da gruta achou algumas pedras que poderiam servir para fazer fogo. Arrumou um monte de matinhos secos e riscou duas pedras uma na outra até que uma faísca ascendeu fogo nos gravetos. Conseguiu assar os peixes e comeu satisfeito.

Devidamente alimentado, Daniel não buscava conhecer as redondezas, só queria paz e encontrou paz naquela gruta. Passou o resto da tarde na porta de sua nova casa, ficou algumas horas calado e conversou bastante com as pedras e as árvores ao final do dia.

Passaram-se os dias e completou-se um mês. E ele praticava o mesmo ritual: pescaria pela manhã, almoço, contemplação e bate papo com a natureza à tarde, e dormia com o cair da noite. Estava contente.

Um belo dia o crepúsculo trouxe uma cor amarelada para toda a floresta. Extasiado, falou:

- Como é linda a cor do pôr-do-sol, não acha mãe?

Então percebeu. Estava falando sozinho. Logo ele que nunca dera importância a falar com ninguém, que sempre menosprezara o que os outros diziam. Estava conversando, mas sem diálogo, tal qual acontecia àqueles que tentavam conversar com ele.

Num instante começou a caminhar em círculos e falar, sem parar:

- Puxa vida, dona pedra, eu passei tanto tempo calado sem querer falar nada com ninguém e agora que estou aqui completamente isolado, comecei a falar.

- Mas eu afirmo, do fundo do meu coração, que me sinto muito mais a vontade para exprimir minhas idéias aqui na mata. Em casa, eu nunca podia dizer que meu pai estava errado, pois ele me xingava; quando perguntava à minha mãe por que a gente era obrigado a ir à missa toda semana, ela respondia: porque sim! Na rua, as outras crianças não gostavam de falar comigo, porque ninguém entendia minhas indagações filosóficas. Eu realmente não pertenço àquele mundo.

- Não pertenço ao mundo dos seres humanos como todos os gênios incompreendidos do passado. Eu sempre sonhei com o que seria a tal liberdade sobre a qual todos sempre falam e buscam, mas poucos conseguem alcançá-la realmente. Nem mesmos os meus ídolos, pois viviam cerceados pela vida no seio da comunidade a qual pertenciam. Não saberiam viver sem aplausos, elogios ou confortos. Somente os grandes aventureiros estão livres nesta Terra. Somente são livres aqueles que superam o medo de estarem sozinhos e reger sua própria vida sem padrões. Muitos escreveram sobre isto, mas poucos podem sentir o que eu estou sentindo hoje.

- Meu único limite ainda é a fome e o sono. Ou será que estou exagerando?

- Serei um dia capaz de transcender os limites físicos que aprisionam o meu ser? Eu desejo viver muito além do bem ou do mal, desejo ser além da dor, da fome, do frio...

- Mas esta busca incessante me tornará escravo do meu desejo...

- Agora compreendo. Quanto mais respostas eu buscar, menos respostas terei.

- Sócrates já disse isso, seu burro!!!

- O melhor mesmo é ficar calado.

Subitamente seus anseios passaram. Limpou sua mente, desta vez, da preocupação de encontrar respostas para sua existência ou de satisfazer desejos impossíveis.

Mais um mês se passou. Dia após dia, Daniel levantava, conseguia comida, satisfazia sua necessidade de ser vivo e contemplava as árvores, o rio, os peixes, as pedras, os pássaros e a gruta. Apenas contemplava, não dizia uma só palavra, não exercitava um só pensamento, apenas via, ouvia e sentia.

Até o dia em que se sentiu sozinho!

Nunca experimentara aquela sensação. Agora ele sentia falta da sua mãe, do pai, dos amigos da república e até do pessoal do restaurante. Após dois meses e alguns dias de retiro na mata ele desceu até a cidade para ver as pessoas, talvez estivesse curado, pensou.

- Não me adianta mais ser livre se não posso compartilhar minha liberdade. Não adianta mais contemplar a vida se não tenho com quem compartilhar minhas idéias e experiências. Retomarei minha vida de pessoa comum...

Chegando à vila, estava sujo, barbudo e cabeludo. Sua aparência assustou os moradores da pequena cidade; e seus modos mais ainda. Chegou à praça principal falando como um profeta:

- Olá, amigos que não temem a vida em sociedade... Devemos enfrentar nossos desafios... A convivência entre os seres humanos é um mal necessário.

As pessoas se entreolhavam e cochichavam. Os habitantes do local não gostaram muito daquela figura estranha que apareceu do meio do nada falando aos quatro ventos e fizeram com que calasse. Não foi preciso brutalidade, apenas a desaprovação pública fez com que Daniel parasse de falar. Ficou cabisbaixo, percebeu que ali também não era o seu lugar.

Um caminhoneiro que estava de passagem, ofereceu uma carona, o Calado aceitou.

- Aonde o senhor vai?

- Vou ao litoral – disse o motorista do veículo.

Daniel ficou quieto e deixou-se levar. Era um viajante que morava no litoral e estava na serra para realizar alguns negócios. A viagem demorou o dia todo e o calado não se manifestou contra nada e não pediu para que o motorista o deixasse ir.

Durante a viagem só o motorista falou:

- Porque a seleção isso... porque o presidente aquilo... e o combustível está muito caro...

E o Calado em silêncio.

- Fim da linha, profeta! Aqui você vai encontrar um monte de maluco assim como você, que gosta de falar pros outros no meio da praça. Mas vê se toma cuidado, se falar mal da religião ou do time de alguém, vai apanhar.

- Muito obrigado! - agradeceu, por educação, Daniel.

A reprovação de sua atitude de falar ao público fez Daniel retroceder ao que era antes e sua dificuldade de comunicação foi fatal no calor da vida litorânea. Não conseguia dialogar com ninguém. Não pensou em voltar para casa. Não tentou avisar sua família. A saudade que o acometera na mata, morreu, graças ao comportamento das pessoas da vila. O Calado passou dois dias dormindo como mendigo junto às rochas, próximo ao mar, e seu desprezo pelos seres humanos só fez aumentar nos primeiros contatos com a população praiana.

As pessoas vão à praia para se divertir e Daniel não suportava tanta gritaria de criança, tanto exibicionismo dos jovens, nem tanta sujeira feita pelos adultos. Passou caminhando por toda aquela gente que tomava banho de mar, bronzeava o corpo, praticava esportes, conversava, brincava, bebia e fumava. A praia estava realmente cheia. Ao caminhar, Daniel trombava com um, recebia um xingamento de outro, ouvia uma piadinha sobre sua higiene e, pouco a pouco, foi crescendo dentro dele um ódio profundo por aqueles seres.

Agora ele não mais desprezava os seres humanos, porém os odiava e odiava a si mesmo por ser um deles. Seu novo objetivo era encontrar uma forma de eliminar todo aquele sofrimento. A filosofia não bastava. Durante a temporada na floresta todos os questionamentos se mostraram inúteis.

Repentinamente interrompeu sua caminhada sem destino e voltou-se para o mar. À beira d’água, fitou fixamente a linha do horizonte. Estava hipnotizado. Pensou como sua família era rude e cheia de cobranças; pensou na ignorância das pessoas da cidade; pensou como as pessoas da vila o hostilizaram; pensou como as pessoas do litoral também o hostilizaram; lembrou contente do motorista de caminhão que o trouxera ao litoral sem cobrar nem um sorriso. Mas aquele era, para Daniel, o único ser humano respeitável do planeta; uma exceção à regra. Passou cerca de uma hora contemplando o horizonte em sua interminável tarefa de meditar sobre o sofrimento humano. O barulho das pessoas na praia o incomodava. Decidiu, então, que precisava ir aonde não houvesse ninguém, precisava encontrar um novo lugar, onde não houvesse nada, onde não houvesse sequer seu pensamento. Entrou no mar. Foi andando, andando, nadando, nadando, nadando até sumir na imensidão do oceano, em busca do fim do mundo!

2 comentários:

Hugo Balestra disse...

Em primeiro lugar, este Daniel era um psicopata translúcido e ignorante!!, nasceu lezado!!,muito provavélmente a dona Maria mãe dele fumava Crack quando estava grávida dele, isto é o que geralmente acontece com as pessoas que se formam, ou melhor se tornan psicólogos!, pois querem enteder a mente humana!!!, e a mente humana é terra quem ninguém pisa!!!, uma vez detonada, não ha nada que cure, que volte a normalidade de sempre(cada qual a sua maneira de se entender..., falou?), por isto é que aparece de vez em quando, aqui na terra uns "bicho grilo" como este tal de Daniel "o calado", que sem duvída nenhuma nós os temos por pouco tempo, pois o fim destas aberrações é sempre o suicídio!!!

M. Lima disse...
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